Minha relação com desgraça próxima é sempre muito distante. Paradoxo? Não. Ontem, aconteceu o tal terremoto e, hoje, várias pessoas vieram me perguntar se eu senti alguma coisa. Não, não senti nada e se me disserem que os jornalistas de Cidades inventaram o tal terremoto só porque não agüentavam mais escrever e falar sobre o caso Isabella Nardoni, sou bem capaz acreditar e até achar que fizeram bem. O caso parece solucionado. Notícia agora só quando sair a pena ou se os indiciados conseguirem inocência. Mesmo assim uma entrevista para dizer nada de novo ocupa 30 minutos do horário “nobríssimo” e milhares de árvores são derrubadas diariamente para mostrar os desdobramentos (?) da triste morte de Isabella.
Bem, voltemos ao terremoto. Só fique sabendo da tal nova tragédia hoje pela manhã. Abri a porta e vi o jornal com a manchete sobre o terremoto em São Paulo. Só pensei: “nossa, nem vi nada, que bom”. No ano passado, aconteceu uma coisa muito semelhante. Estava no Rio e passei um domingo inteiro dentro de casa curtindo a preguiça que um dia nublado me permite. Ouvi um certo movimento de carros de polícia que me disseram não ser normal. Como não sou carioca e não me sinto segura naquela cidade, nunca me espanto com a movimentação da polícia por lá. No dia seguinte, quando estou voltando para São Paulo vejo estampado na capa do Globo que um delegado havia levado 9 tiros exatamente na primeira rua paralela a que eu estava em Copacabana. Pensei: “que bom que não desci para tomar café no lugar que eu tanto gosto, mas que ficava bem na rua do tiroteio”. Preguiça, às vezes, faz bem.
A outra tragédia próxima que eu consegui deixar distante foi em 2006. O PCC atacou um Pão de Açúcar que ficava exatamente ao lado da minha casa. Minha mãe me ligou 7h da manhã. Queria saber se eu estava bem, porque a Globo estava na frente da minha casa mostrando que o supermercado tinha sido atacado. Eu sequer tinha ouvido algo.
Quero para sempre deixar as desgraças próximas muito longe de mim. É muito bom não me sentir envolvida na comoção social que elas provocam e poder dizer: não vi, não ouvi, não senti. Não sou testemunha da História.