Desacato

Tirar passaporte em São Paulo é uma verdadeira maratona. Vc entra no site, faz o seu cadastro, agenda, espera dois, três meses e finalmente chega o dia de vc ir até a agência. Lá, é atendido por uma solicita funcionária que tem acima de sua cabeça uma placa escrita: “Desacato – blábláblá”.

Se vc não notar a existência da placa, como foi o meu caso, ela vai fazer você notar. Basta fazer uma pergunta simples e despretensiosa. Por exemplo:
- Posso ver a foto que será usada no passaporte?
- Não.
- Por quê não?
- Porque não.
- Nossa, achei que tivesse uma explicação.
- O sistema [sempre o sistema com seus superpoderes] gera a foto e manda para o documento automaticamente, não dá para escolher. Já imaginou se todo mundo quisesse escolher a foto.
- Poderiam pedir para a gente trazer a foto, como era antigamente, assim evitava este problema.

Acho que discuti mais do que queria e ela sempre fazia questão de olhar para cima, como se quisesse me alertar: “mais uma palavra e te enquadro no desacato”.

Como quero viajar e felizmente minhas férias estão próximas, fiquei quieta. Não dá para passar os esperados dias de folga numa cela. Na semana seguinte, voltei para buscar o passaporte. E desta vez, o funcionário era legal. Acho que homens têm uma tendência a tratar melhor as mulheres e vice-versa. O melhor é que ele não tinha a plaquinha de desacato sobre a cabeça.


 

Palavras

Noutro dia, fui ao Museu da Língua Portuguesa. Nunca tinha ido, embora tantas pessoas recomendem. Estava no meu dia de turista na minha própria cidade, já que estava recebendo um amigo estrangeiro. Os ingressos custam R$ 4 e me disseram que as filas costumam ser longas, mas eu dei sorte. Não havia fila e os ingressos eram de graça.

Ao explicar ao meu amigo que não teríamos que pagar pelos ingressos, me pus a pensar sobre a palavra "free", sinônimo de livre e de grátis. É isso!!!! O mundo seria muito melhor se a gente fosse livre e não tivesse que pagar para fazer coisas que temos vontade. Esta seria a única maneira de garantir verdadeiramente o direito de ir e vir, que é um dos princípios de nossa constituição.

Hoje, a gente só pode ir até onde o nosso dinheiro nos permite e muitos têm que se submeter a regimes semelhantes aos escravocratas para conseguir um pouco de dinheiro para ir até a esquina comprar um prato de comida. Quero mais coisas free, quero me sentir mais free.


 
Google

Arquivos